ainda cultivo a mania de preservar recordações dos mais diversos tipos. simplesmente não deixo as coisas se esgotarem. alguma parte de mim preserva todas as sensações e as relaciona principalmente a músicas e perfumes. é inevitável, não sei como eu faço isso. e ontem, no caminho para o trabalho, uma música me fez lembrar da coragem da juventude e da facilidade em transformar tudo ao redor apenas com a força de vontade. senti saudade. saudade de não temer a queda da montanha-russa e, ao contrário, ansiar pelo frio na barriga enquanto ela despenca. senti saudade dessa necessidade em desafiar a si próprio e se colocar cara a cara com o perigo... sorrindo. envelhecer nos acovarda. nos faz deixar de pensar que a vida é longa e passar a encarar sua brevidade. as coisas fazem mais sentido porque tememos perdê-las, quando antes ansiávamos por tê-las. sim, coloquei as conclusões antes dos fatos, simplesmente porque eu funciono melhor assim. o fato é que ouvir a música preferida, da banda preferida aos 14 anos me fez lembrar meu primeiro namorado. rapaz muitíssimo corajoso, mas claro que só hoje avalio assim. eu, 14 anos. ele, 17. eu, uma garota boba que imaginava que a vida, aos 18, seria perfeita e completa. boba, enfim. ele, um garoto de 17 anos como todos os outros, cuja maior ambição era finalmente dirigir o próprio carro e, claro, ser um astro dos palcos. tocava violão. não tocava bem, mas eu adorava. cantava bem, mas não falava inglês. a primeira vez que nos beijamos (a segunda vez que eu beijei qualquer garoto) foi em frente à igreja, após a missa que seguia a aula de crisma. ele me convenceu quando tocou a minha música. corajoso, eu disse antes. com um violão nas mãos, me perguntou qual era a banda que eu mais gostava. metallica. só sabia tocar uma música dessa banda, eu queria ouvir? por mim tudo bem, qualquer coisa que me impedisse de falar, porque eu era péssima nisso. tocou mama said. namoramos por quase dois anos, eu acho. ele não tocou bem. ele errou a letra. ele me conquistou. hoje, os caras da minha idade não falam comigo. não assim, deliberadamente. não ao vivo (preciso admitir que no msn eles falam). eles não convidam para uma conversa. não antes da segunda cerveja. eles não dançam. eles esperam. eles não ligam, eles não mandam msg. alguns se acomodaram com a facilidade, verdade. mas alguns apenas se acovardaram. talvez tenham tocado mama said tantas vezes e para tantas garotas, aos 17; e tantas vezes tiveram os corações partidos por essas mesmas garotas, que agora sejam todos covardes, gatinhos amedrontados diante de verdadeiras leoas na selva. pena. eu? continuo gostando de metallica, mas não ando mais em montanhas-russas.
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