9 de junho de 2014

nada acaba, só recomeça

e recomeça de um jeito que talvez não seja o sonhado, esperado ou desejado. mas recomeça. os dias continuam correndo o calendário, o planeta continua girando transformando dias em noites sucessivamente.

muitas vezes a gente demora a entender que o que mais desejamos talvez não seja o reservado para nós. não basta sonhar um sonho que não pode ser seu. e  vida exige um esforço enorme a essa adaptação, que passa por uma difícil e dura fase de aceitação, que pode levar anos. anos de prantos e conflitos; anos de insistência, daquela vontade de fazer dar certo, fazer acontecer. às vezes simplesmente não é para acontecer. e dói admitir a e aceitar isso. mas essa dor, como qualquer outra, diminui a cada dia, porque somos feito de uma força que é capaz de nos segurar mesmo na descida dos mais assustadores precipícios. 

nunca imaginei como seria minha vida aos trinta. acho impossível ter a noção do que a vida reserva pra gente. damos uma aparadinha aqui, outra ali... mudamos o rumo, voltamos. mas é sempre tudo uma grande incógnita. mas sempre tive muitas certezas. todas as certezas.

a vida mudou todas elas.

aos 13 anos, eu seria freira. aos 17, na faculdade, seria a melhor repórter esportiva do país. aos 20, cobriria um grande evento mundial por uma agência de notícias fodástica. antes dos trinta escreveria um livro sobre como é ter sonhos realizados. depois disso, viveria sozinha em uma casa feita de madeira, num lugar frio e perto de um lago.

bom, aos 13 eu descobri como as pessoas podem ser maldosas com as outras. aos 17, na faculdade, o professor me disse que dava tempo de procurar outra profissão. aos 20 eu larguei a faculdade, pra voltar aos 21 e me tornar uma assessora de imprensa especializada em gastronomia, quando eu nem sabia o que isso queria dizer. aos 22 anos Deus sussurrou baixinho no meu ouvido que nunca mais eu estaria sozinha de novo, pois uma sementinha plantada por ele estava brotando dentro de mim. aos 25 eu era a mãe mais feliz do universo, tinha um trabalho legal e um ex-marido idiota. aos 26 saí da casa dos meus pais e, dividindo a guarda da minha princesa, aquele monstro da solidão voltou a me assombrar. 

as vozes dentro de mim gritavam que eu precisava de mais, mas eu tinha certeza que não podia ter mais. tudo aquilo já era muito.

perdi meu apartamento, voltei pra casa dos meus pais, entrei em depressão e larguei o emprego. a vida desmoronou na minha cabeça. depois de um ano muito, muito difícil, alguma coisa voltou a brilhar. trabalho novo, faculdade nova, muitos e muitos planos. 

ainda faltava alguma coisa.

quando seus desejos internos mudam, você inteira muda. não queria mais o plano de terminar a vida naquela casinha perto do lago. nem a futilidade das distrações do mundo faziam mais sentido. queria agora uma casa grande, muitos quartos, brinquedos, crianças, viagens aos finais de semana, bicicletas penduradas no carro. eu queria uma família.

e, de novo, a depressão veio com toda a força e o poder de destruição que só ela tem.
era a vida de novo, me obrigando a aceitar que o que eu quero não é, necessariamente, o que eu posso. e tentava convencer a mim mesma de que a vida poderia continuar daquele jeito. que sozinha não é ruim. poderia ver minha filha crescer e continuar sendo a mãe mais feliz do mundo. e só.

então a vida veio de novo com aquela onda enorme que sempre me engole. e me disse "você pode sim". e eu acreditei. acreditei que podia tentar de novo. acreditei que seria capaz de amar de novo. e essa é a parte boa. eu sou capaz de amar de novo.

construí, com muito custo, mas muito feliz, um novo castelinho de areia. acreditei que poderia voltar a sonhar com aquela casa cheia de crianças, brinquedos e barulho que já tinha dado por perdida.

mas a vida... imperdoável. me tirou isso também.
tenho certeza que foi um aprendizado. Deus, tentando me ensinar alguma coisa, mas juro que não consigo entender.

um dia, talvez, quando essa dor diminuir e eu puder voltar a enxergar a vida da maneira simples, como sempre foi, sem grandes sonhos, daí talvez eu entenda. porque hoje só é possível sentir e ressentir.

mas eu sou capaz de amar, apesar de tudo e para o que quer que sirva isso.


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