Mais um fim de semana exatamente igual. Eu me arrastando e me obrigando a fazer coisas que definitivamente eu não estava a fim de fazer, mas obrigações são obrigações. Acordar às seis da manhã em um sábado, passar o dia limpando, lustrando, lavando, correndo, pedindo, cuidando, parando e vivendo em função de outras pessoas e me deixando de lado. E tudo se repete no domingo. Esperei uma semana inteira, por esses dois dias. Trabalhei muito todos os dias, pra que o descanso fosse merecido e, dois dias depois, meus cabelos continuam brancos, apesar da tintura estar em cima da pia do banheiro há uma semana. Minhas unhas continuam corroídas, minha pele continua manchada, os cravos continuam no nariz e minha cabeça continua doendo. A fome foi embora há muito tempo e até comer se tornou obrigação. Hoje eu olho para os lados e me sinto num deserto árido, quente e assustador. Não, não posso pensar que vou poder intercalar minha vida de mãe e minha vida de mulher. Mãe mulher não existe. Ser mãe absorve todas e quaisquer outras possibilidades de ser algo além disso mesmo. E isso soa como reclamação. Afirmar isso tudo me faz sentir como se uma lança de egoísmo atravessasse a alma. Me faz sentir o pior ser humano do mundo. Ser mãe, por si só, deveria me completar, deveria ser suficiente. Então de onde vem esse desejo incontrolável de ser algo mais, de ser mãe, mulher, de ser feliz e de ser completa?
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