2 de junho de 2014

a escola e seus rituais

Começamos bem o dia. Caixas de som desafiando a tolerância humana aos índices de decibéis, campeonato de skate com o pátio transformado em half. Rampas, obstáculos e tudo o mais que caracteriza a prática do esporte mais comum entre os adolescentes com exceção, claro, do equipamento de proteção. Mas isso é só detalhe, certamente.

Última semana de aulas, exige um grito de despedida, de alívio. Um ritual de encerramento.
Bom, costumava exigir. Eram semanas estudando, pesquisando, caprichando nos trabalhos, pois terminar o semestre com boas notas significava viajar nas férias, mesmo que fosse para a casa dos avós, encontrar os primos, coisas assim. Era um esforço tão grande que exigia uma recompensa. Costumava ser assim.

Mas voltemos a realidade. Atualmente a educação no Brasil segue o sistema de aprovação automática, o que significa algumas séries simplesmente não reprovarem mais. O sujeito entra na escola sabendo que, não importa o seu esforço, suas notas ou frequência, passar de ano não é mais sua preocupação primordial. Estudar, aprender... está tudo em segundo plano e depende exclusivamente da vontade e esforço individual. Traduzindo para o bom português: estuda quem quer. E não precisa ser um gênio da psicologia juvenil pra saber que jovens entre os 10 e 17 anos precisam de estímulos cada vez maiores ou dispersam pelo caminho.

Contudo, o ritual de encerramento deixa de ser aquele grito de alívio para se tornar apenas... uma festa. Uma comemoração sem sentido. Comemorar o fato de ter alcançado a média escolar (que atualmente caiu para 5 pontos!) sem o menor esforço; comemorar o fato de ter entregue um trabalho porco e nojento, feito à mão, na folha do caderno, no prazo já estendido duas vezes pelo professor e, ainda assim, ter alcançado a média; comemorar o fato de ter entrado na sala de aula apenas uma vez no mês, para assinalar qualquer coisa nas múltiplas alternativas da prova (sim, porque hoje as provas são todas de múltiplas escolhas, não existe mais a apavorante prova dissertativa, que nos fazia perder o sono, sentir calafrios, dor de barriga e vontade de colo de mãe).

Enfim, acabamos com um ritual importante da vida do adolescente para lhe dizer que pode sim, viver a vida na flauta, fazer apenas o que gosta, vir à escola para fazer amigos e, ainda assim, ser presenteado com uma festa ao final do semestre. E mais, festa com direito à música que eles mesmos escolheram.

O que significa uma única coisa: melhor se preparar, pois vem aí uma semana inteira de funk no último volume e letras ditando as regras atuais: mulheres devem ser "poderosas" para atrair os homens e homens devem ostentar cada vez mais para ter ao seu lado uma poderosa.

A única coisa que ninguém parou pra pensar é que não estamos lidando ou falando de homens e mulheres, mas de crianças que estão num limbo, sem direção, esperando que os adultos, conscientes, lhes mostrem ou pelo menos deem dicas de qual caminho seguir. Mas os adultos estão ocupados demais...

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