28 de maio de 2014

é trabalhando que se aprende

Descobri a melhor forma de aprender sobre um assunto, uma área específica do conhecimento. Não, nada disso, nada de pesquisas, estudos de casos ou qualquer coisa que o valha. O jeito mesmo é trabalhar. Viver aquilo todos os dias; transformar o objeto de estudo numa parte significativa da sua vida.

Bom, dito isso... é triste, mas necessário dizer: a educação, nesse país, está largada às traças. Assim mesmo, sem sutilezas, ponderações, sem vergonha mesmo, soltando o verbo. Verbo aliás, que metade do corpo discente atual sequer sabe conjugar até a terceira pessoa do singular.

Sim, porque o vocabulário informal e as gírias comuns dos adolescentes atuais tornaram-se um modo de comunicação tão específico e "autoatualizável" que nem o cérebro mais perspicaz é capaz de compreender.

Hoje não se vai mais a lugar algum. Hoje "nego cola na grade" a qualquer hora; "fulano vai ir naonde todo mundo for" porque "nóis tá junto, parça", para o que der e vier. É uma quantidade tão grande de "neologismos" que seria capaz, sem falsa modéstia, de publicar um novo dicionário a cada semana.

Ok, fosse só o português errado, o problema não seria tão grave. Mas a coisa vai além, muito além. Perdeu-se a referência. A referência do professor como mestre, que bem ou mal alguma coisa tem a ensinar; a referência da escola que, por mais falta de estrutura que encontre, é o espaço de convivência onde se aprende muito sobre a vida; a referência do castigo, da punição, do prejuízo a que se expõe quem não segue as regras.

Quando uso o termo "largada às traças" não me refiro a um prédio vazio, aos pedaços, velho e sujo, mas ao sistema, de uma forma geral. Um sistema que mexe com a vida das pessoas, capaz de ditar hoje, como será o futuro de toda uma geração. Falo de prédios recém-reformados, cheiro de tinta fresca, carteiras novas, comida da melhor qualidade, material e uniformes grátis. Falo de escolas com mais de mil alunos, funcionando das 7h às 23 horas, formando uma geração  inteira de analfabetos funcionais e cabeças ocas.

Não sou muito velha, mas já na minha época de estudante (uniformizada e sem dizer um piu na sala de aula) ouvia o velho discurso de que o sistema quer mais é que as pessoas não pensem mesmo, assim se forma uma massa de seres manipuláveis. Mas, na minha época de bancos duros da escola, já ouvia músicas, assistia filmes e até lia gibis com tom revolucionário. Na minha época, crianças da sexta série entendiam o clipe do Pink Floyd; na oitava sabíamos mais que de cor as letras de Renato Russo, Plebe Rude e tantos outros que tentavam dizer alguma coisa.

Sou de uma época em que jovens assistiam com os pais a debates políticos, mesmo sem entender direito tudo aquilo. Vi os caras pintadas e assisti um presidente ser distinto do cargo.

Posso, sim, ter decorado a tabuada, um ou dois questionários de geografia... mas não morri por isso. O mais importante eu nunca esqueci: perguntar por quê? Os professores que passaram pela minha frente, me instigavam a perguntar porquê e a entender porquê.

Hoje, se você perguntar a um jovem por quê a resposta mais óbvia talvez seja a clássica "sei lá". Ou, dependendo da região, um sonoro "foda-se". E é esse "foda-se" que reverbera por toda essa geração. O país está uma merda. Ah, foda-se!. A economia está falindo. Ah, foda-se!. Os filhos estão matando os pais. Ah, foda-se!. Acabou a droga. Pera aí, o quê??????

Não ria. A coisa ta feia pros nossos jovens. Mas são esses jovens que formarão a grande massa em 20 anos. E ninguém pensa nisso.

Os alunos são, na melhor das hipóteses, um meio para se alcançar um fim.
Para a escola, são a razão de existir. Ora, sem alunos, não há escola e sem escola, não há verba. Ponto.
Para os professores, são o mal necessário. Ora, sem os alunos não há salas de aula e sem aulas, não há salário (mesmo que ruim).
Para os administradores, são o disfarce perfeito. Ora, para quem são necessários tantos pedidos de materiais, verba disso e daquilo? Ponto outra vez.

E não apareça você em qualquer órgão dito educacional a fim de obter uma resposta ou fazer um questionamento sobre (pasme!) a educação. Na-na-ni-na-não, caro cidadão preocupado com o futuro do seu filho. Ninguém vai te ouvir. Qualquer pedido, questionamento, sugestão ou o diabo que for deve ser protocolado em duas vias e aguardar a avaliação do órgão-mor, responsável pela elaboração de belas respostas que não dizem nada que realmente importa.

Diretores mascaram a verdade sobre suas escolas, professores mascaram a verdade sobre suas salas de aula e tudo vira um grande circo.

Os alunos? Estes ninguém sabe quem são. São seres sem identidade, pra quem qualquer coisa está bom, feita de qualquer jeito...

Uma mãe traz à escola a reclamação de que o filho não se sente bem na escola, sente-se acuado ou é obrigado a fazer favores aos amigos... e a resposta é: invenção dele pra não ir pra escola.

Uma mãe diz que o filho presenciou uma cena inadequada na escola... e a resposta é a mesma.

A escola reclama que os pais não querem educar os filhos; os pais reclamam que a escolha não quer ensinar os filhos e os filhos... estão por aí, na porta das escolas, dentro das escolas... mas não peça a nenhum deles para conjugar um verbo.

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