
quantas vezes ainda terei que ouvir "sei que nunca poderei te ter". já tenho 30 anos e ainda me sinto a mesma idiota solitária, feia e descartável que era aos 15 e, ainda assim, não sei quantas vezes ouvi essa mesma frase de bocas irremediavelmente diferentes. porque assim dói muito mais. dói muito mais ser sozinha e sofrer toda essa solidão sabendo que existem pessoas lá fora que sinceramente acreditam não serem boas o suficiente. pessoas incapazes de perceber o quanto são maravilhosas e que simplesmente não podem me ter porque eu não sirvo pra nenhuma delas. porque eu simplesmente não sirvo. eu sou uma peça condenada, que nunca vai se encaixar em nada nem pertencer a lugar algum. e pensar que as pessoas realmente me culpam por não aceitá-las só aumenta essa dor. porque - deus sabe o quanto - eu gostaria de ser suficiente. o quanto gostaria de ser boa o suficiente para todas ou qualquer uma delas. ser feliz e isso bastar. ser feliz, simples assim. encontrar um lugar; recostar no peito de alguém e sentir que ali é o meu lugar. e isso nunca aconteceu. talvez nunca irá. porque aquela sensação boa, aquele friozinho bom na barriga e a certeza de que aquele lugarzinho quente foi feito pra mim, isso simplesmente não existe. esse lugar nunca é o meu lugar. é o lugar de alguém. alguém que saiu dali pra buscar um copo d'água, mas que já volta. alguém que foi ali comprar pipoca, mas já volta pra terminar o filme. eu sou só a almofada que fica ali, guardando o lugar pra quando esse outro alguém voltar. então não, por favor, não me diga "sei que nunca poderei te ter". ninguém pode. porque eu simplesmente nunca poderei ser de ninguém. de longe, talvez você possa até me admirar. como se admiram as águas vivas. sabendo que são letais. e por mais atraentes, vão te machucar. melhor ficar longe, então.
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